quinta-feira, 16 de abril de 2009

IMPORTÂNCIA DA ATUALIZAÇÃO

A atualização profissional é um tema muito importante para qualquer área. Muitas pessoas estão com medo da crise econômica e estão economizando tudo que podem em todos os sentidos.

Talvez o maior erro no meio dessa crise seja o profissioanal parar de investir, seja nele próprio, seja na sua clínica, equipamentos, instalações ... A pergunta que eu faço é: a crise é eerna ou ela acaba um dia?

Para quem acha que vai acabar um dia (não sei se será rápido ou demorado), faço outra pergunta, se a maioria das pessoas estão parando de investir e melhorar, o que acontecerá com essas pessoas quando a crise acabar? E o que vai acontecer com as pessoas que continuaram se atualizando e melhorando cada vez mais??

Pois é, na minha humilde opinião esse é o momento para investir cada vez mais, vejo que nesse momento temos uma grande oportunidade para ficarmos cada vez mais fortes, quero dizer com isso que esse momento pode ser muito bom desde que cada um de nós saibamos aproveitar.

Voltando ao meu caso especificamente, felizmente esse momento de crise não está me afetando diretamente, mas mesmo assim vejo que é hora de melhorar algumas coisas. Resolvi por exemplo comprar uma câmera fotográfica melhor, para quê? para poder documentar minhas cirurgias e com o tempo isso pode fazer toda diferença.

Além disso ainda há a necessidade de eu me atualizar sempre para oferecer novas e melhores técnicas cirúrgicas, claro que geralmente uma técnica nova exige equipamentos novos, mas oferecer sempre o melhor é importante e para mim é fundamental.

Até o fim do mês terei mais notícias sobre essas atualizações que estou fazendo, novas técnicas virão e com certeza salvarão ainda muitas vidas.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Vida ou morte?

Não sei se esse título é o mais apropriado, na verdade queria dizer outra coisa, mas não consegui me expressar bem.

Um dia desses recebi uma ligação e ma avisaram que teria uma cirurgia de emergência, perguntaram quanto tempo eu levaria para chegar e disseram que o animal estava muito mal. Por telefone mesmo pedi para o pessoal que estava atendendo fazer os primeiros socorros enquanto eu não chegava e pedi para um dos meus anestesistas acompanhar o caso e ir preparando o animal para cirurgia. O diagnóstico? Torção gástrica, só para quem não conhece essa doença terrível ter idéia do que eu estou falando, vou fazer um breve resumo.
A torção gástrica é uma doença que acomete principalmente cães de grande porte, esses animais tendem a comer muito e muito rapidamente. Um quadro de "indigestão" leva a um quadro de fermentação do alimento e os gases produzidos provocam a dilatação gástrica (o estômago fica estufado), da dilatação para a torção é um passo, pela anatomia do estômago, qualquer movimento ou esforço faz esse órgão girar e torcer. Além de uma bela dor de barriga, gastrite, cólicas e tudo mais, o animal passa a ter vários problemas cárdio-respiratórios porque todo o sangue do animal começa a se acumular no estômago (vai para o estômago e não consegue sair). Isso é realmente uma emergência, sendo que muitos animais acabam falecendo em decorrência dessa doença.

Bom, voltando ao fato anterior, quando cheguei na clínica os primeiros procedimentos já tinham sido tomados pela minha equipe e o animal estava pronto para a cirurgia, mesmo com toda a agilidade nos procedimentos, o animal não estava bem e entramos em cirurgia muito preocupados. Durante a cirurgia, contornando algumas complicações já esperadas, disse para o anestesista que as chances daquele animal sobreviver eram pequenas por causa das lesões que ele apresentava e que deveria ficar internado por 72 horas (período crítico).
Quando acabou a cirurgia o animal se portou muito bem, na manhã seguinte (12 horas após a cirurgia) o animal já estva muito bem, inclusive brincando, como se nada tivesse acontecido.... vai entender.

Em compensação lembro-me de outro caso único que aconteceu por aqueles dias. Um animal foi fazer uma cirurgia de fratura, todos os seus exames pré-operatórios estavam excelentes, a cirurgia em si não era complicada e a anestesia como sempre (ainda mais em animais saudáveis) muito segura. Como de praxe foi dito para a proprietária que riscos existiam, mas eram mínimos e que graças a Deus, até aquele dia, nunca tive problemas de perder um animal naquela situação. Durante quase toda a cirurgia não houve qualquer problema, mas no final, o paciente começou a ter bradicardias terríveis (diminuição da frequência cardíaca) e acabou tendo uma parada cardíaca. Foi tentado de tudo para salvá-lo, mas nada... infelizmente perdemos aquele animal. Foi a primeira e única vez que perdi um animal que não apresentava qualquer sinal que nos preocupasse. Foi feita a necropsia e nada de anormal foi achado.... enfim, não se sabe o que realmente levou nosso paciente à óbito; infelizmente hoje já não posso dizer que nunca perdi um animal nessas condições... espero pelo menos que tenha sido o último.

E o que isso tem a ver com o título?? Pois é, como disse o título está meio fora do contexto, acho que ficaria melhor "quem decide quem vive e quem morre?" Não sei, mas contando esses dois casos tenho essa pergunta na cabeça, por que existem casos que parece que não há mais chances e o animal vive e animais que têm tudo para viver morrem?
Quem determina quem vai morrer ou quem vai viver??? Puxa vida, parece que temos um botão de liga e desliga, só que não sabemos onde é, de repente........... alguém vai lá e aperta o botão de ligar ou o de desligar. Será que eu como cirurgião aperto esse botão sem querer? Será que alguma força maior tem um controle remoto que faz isso à distância? Não sei mesmo, e por não saber é que eu luto pelo animal até o fim, não importa se parece ser um caso perdido ou não.
Só quando soubermos exatamente onde está esse botão e como usá-lo adequadamente poderemos definir quando devemos ou não parar de lutar, até lá tenho para mim que devo e vou lutar até o fim, seja o fim a vida ou seja a morte.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Se preparando para cirurgia

Muitas vezes vejo documentários de televisão, seriados, filmes e novelas mostrando a vida de cirurgiões, como eles fazem suas cirurgias, como eles se preparam, que rituais seguem.
Um dia desses parei para pensar sobre o assunto enquanto assistia um desses seriados de televisão e em um primeiro momento achei que não tinha nenhuma mania, achei que tudo aquilo era frescura e que era infundado. Aí parei para pensar como era meu dia a dia e percebi que sigo alguns rituais antes da cirurgia, talvez até inconscientemente, mas sigo.

Cada pessoa é diferente nesse aspecto. Me lembro que durante minha residência em cirurgia de pequenos animais cada cirurgião e cada anestesista tinha uma mania diferente. Só para que todos saibam como eu fiz minha residência o programa era de 2 anos, quem estava no primeiro ano era o R1 e do segundo ano, mais veterano, o R2. Pois bem, me lembro que quando era R1 eu ia com um dos meus R2 para uma lanchonete toda manhã, sempre pedíamos a mesma coisa, um salgado e uma coca de máquina (tinha que ser de máquina). Que horas era isso? Lá pelas 8 horas da manhã (eu sei que era cedo para tomar coca, mas residente não tem hora para nada).
Depois disso a gente costumava voltar para o ambulatório e deixar tudo certinho, atender os pacientes e tudo mais. Na parte da tarde, quando eu ia entrar no centro cirúrgico, eu lembro como se fosse hoje que eu pegava a agenda de cirurgias, pegava os prontuários de cada paciente que ia entrar naquela tarde, me reunia com o outro residente que estaria no centro cirúrgico e dividia os casos e juntos determinávamos a ordem de entrada de cada paciente.

Até aí, tirando a coca cola da manhã, não fazia nada de diferente, mas parando para pensar, o meu principal preparo antes de entrar em uma cirurgia é meu preparo mental, sempre tento me isolar de tudo e de todos nem que seja por 1 minuto, mas esse é o tempo que eu preciso para conseguir mentalizar todos os passos que vou tomar na cirurgia, o que aprendi a fazer nos últimos tempos é visualizar pelo menos 3 maneiras diferentes de se fazer a mesma cirurgia, porque como sabemos cada caso é um caso e se você não souber alternativas de contornar um problema, você com certeza não está preparado para aquela cirurgia.
Outros colegas daquela época gostavam de ficar conversando sobre cirurgia antes de começar, diferentes técnicas, discussão de casos, entre outras coisas ligadas a área; outros ainda preferiam conversar de coisas totalmente diferentes de cirurgia e outros gostavam de ouvir música para relaxar.

A música é um dos temas mais intrigantes dos cirurgiões durante a cirurgia. Já vi novela em que o cirurgião gostava de ouvir música clássica e naquela época da minha residência o pessoal colocava rádio mesmo, então ouvia-se de tudo, menos música clássica. Alguns professores não gostavam e quando estavam fazendo cirurgia mandavam desligar. Eu simplesmente ficava tão concentrado e entretido com a cirurgia que nem prestava atenção no rádio.

Muitas pessoas e muitos colegas veterinários acham que a vida de cirurgião é uma maravilha, que esse preparo é simples, que é chegar, abrir e fechar; mas vou dizer que esse preparo é muito maior. Um bom cirurgião deve se preparar diariamente, pesquisando coisas novas, técnicas novas, revisando técnicas antigas, estudando as doenças, as novas e velhas terapias. Felizmente existem coisas novas a todo instante, é essencial o estudo continuado, passar muitas noites acordado estudando e se atualizando, conseguindo o melhor para o animal.

Durante meus primeiros 2 anos de faculdade estudei para ser um bom veterinário. Do meu terceiro ano em diante resolvi que queria ser cirurgião de pequenos animais e estudei para ser um bom cirurgião. Desde o momento que entrei na residência em cirurgia de pequenos animais, estudei para ser o melhor cirurgião de pequenos animais. Sei que vou precisar estudar muito para conseguir, mas uma coisa tenho certeza, nunca vou parar de estudar.

Exames diagnósticos, qualidade a serviço do animal

Alguns casos marcam nossas vidas. Recentemente peguei dois casos pela frente que me fizeram lembrar algumas coisas de quando eu fazia treinamento nos EUA com emergência e terapia intensiva veterinária.

O primeiro caso que atendi nos EUA foi de um bulldog que chegou com problemas neurológicos e fazendo os exames iniciais, percebi que provavelmente se tratava de um tumor no cérebro ou algum acidente vascular cerebral (AVC). A primeira providência que eu tive foi indicar tomografia (pois é, tinham me falado que havia tomografia no local, coisa de primeiro mundo). O animal já estava sendo anestesiado quando um dos professores me perguntou o histórico do animal e a minha suspeita, essa foi a primeira bronca que eu levei nos EUA.... ele me perguntou, se a sua suspeita é de tumor no cérebro, por que está fazendo tomografia computadorizada?

Respondi que era porque no raio-x simples não iria aparecer nada e a tomografia apesar de não ser o ideal, seria usada porque não tinha ressonância magnética disponível para veterinária.

A resposta dele foi: e o que é aquele aparelho enorme na sala do frente?

Pois é, eles tinham um aparelho de ressonância novinho!!!! Impressionante!!! No mesmo momento fomos para outra sala e fizemos a ressonância que detectou o tumor no cérebro, que foi operado posteriormente.



Aqui no Brasil dificilmente se consegue uma tomografia para animais (alguns lugares em centros maiores estão se equipando), ressonância então... quase impossível. O grande problema disso é que muitas vezes a gente não consegue fechar totalmente o diagnóstico com ultrassonografia e radiografia simples e tudo acaba ficando na base do "achismo".



Veja bem, sou totalmente contra quem sai pedindo exames sem qualquer critério, tudo precisa de uma ordem, passar por todas as etapas, para se preciso, pedir um exame mais sofisticado para fechar o diagnóstico.


E nesses dias lembrei de tudo isso por dois casos, um relacionado a tumor no tórax (que foi feito tomografia computadorizada) e outro com problema de coluna (que foi feito ressonância magnética). O primeiro caso serviu para além de detectar a massa principal, mostrar que já existiam focos de metástase espalhados e que não tinha mais o que fazer. É triste, mas pelo menos é possível falar com certeza para o proprietário o que está acontecendo com seu animal e não apenas ficar no achismo... "acho que ele pode ter tal coisa, mas como não temos tal exame disponível não posso afirmar com certeza" (isso é péssimo para o veterinário, proprietário e para o animal).
O segundo caso mostrou um problema operável na coluna e, se tudo der certo, ele deve ficar bem.

De qualquer forma, uma das coisas que estava conversando com um dos anestesistas que trabalham comigo (que inclusive acompanhou esses dois casos) é que é muito bom conseguir fechar diagnósticos complicados e poder dar uma resposta confiável ao proprietário. Nesses momentos sinto que estamos no caminho certo, oferecendo aos animais o que existe de melhor, fazendo a profissão crescer e trilhar caminhos cada vez mais promissores para a veterinária.

Esses exames para a veterinária ainda são muito restritos. A ressonância então, nem se fala. Mas felizmente conseguimos chegar a esse nível de Medicina Diagnóstica que pode revolucionar muitos tratamentos.
Sempre há um lado triste porque os exames cada vez mais elaborados conseguem detectar doenças muitas vezes incuráveis, mas com certeza esses sentimentos de impotência em casos que nada podemos fazer são compensados pelos vários pacientes que com esses exames podemos salvar.
A certeza de fazer o correto e o melhor para os animais me deixa com uma sensação de tranquilidade e vontade de fazer cada vez melhor, sempre!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Cuidados com o paciente e com o proprietário

Quando estava na faculdade, em um dos meus trabalhos lembro que usei pela primeira vez o termo paciente. Fiquei me perguntando se eu poderia usar aquele termo para animais, pois até aquele momento só tinha visto em humanos. Pesquisei em alguns trabalhos, artigos e pesquisas e vi que se tratava de um termo corriqueiro também na veterinária, fiquei muito feliz, pois poderia usar esse termo que se trata de algo médico.
Um dia desses percebi que esse termo (que eu achava tão chique) não tinha todo esse "glamour", e percebi isso ouvindo uma entrevista de sei lá quem na TV.
O termo paciente surgiu há muito tempo atrás, ainda na época dos feudos. Para quem não lembra ou não sabe (ninguém é obrigado a saber disso) os feudos se formaram há muito tempo (se não me engano lá na idade média) e era constituído basicamente de uma muralha que envolvia a cidade, que tinha o senhor feudal, os servos e o pessoal da igreja.
Nesse tempo a medicina ainda era muito arcaica, e os doentes geralmente não tinham muitas expectativas, como se sabia que muitas doenças eram contagiosas, esses doentes eram mandados para fora dos feudos e se abrigavam em barracas.
Algumas pessoas de sempre saíam do feudo para levar medicamentos e alimentos aos doentes (talvez essa seja a primeira noção de hospital que se possa ter) e essas pessoas que ficavam para fora do feudo (os doentes) eram chamados de pacientes, pois estavam pacientemente esperando pela morte.

Claro que hoje esse termo mudou de significado, o paciente deixou de ser alguém que espera a morte para ser alguém que precisa voltar a recuperar a vida, de qualquer forma, depois que eu descobri a origem da palavra, deixei de ter simpatia por ela.

Para nós veterinários o termo paciente não pode ser pensado sem o termo proprietário, essa relação entre os três (veterinário, paciente e proprietário) é uma das mais complicadas e delicadas que existe.

A relação com proprietário é sempre difícil, pois se trata de um ser humano, um ser social, que geralmente não se encontra em seus parâmetros normais de temperatura e pressão (obviamente causado pelo nervosismo da situação).
Existe todo tipo de proprietário assim como existe todo tipo de ser humano. Me lembro de um caso de um animal que foi achado atropelado e a pessoa que achou resolveu arcar com o tratamento e adotá-lo. Eu nunca vi uma pessoa tão calma e consciente como ele, apesar de ser humilde, não ter dinheiro sobrando (muito pelo contrário) ele fez questão de fazer tudo que era possível pelo animal que no final ainda acabou falecendo... coisas que acontecem, justo?injusto? Não sei.
Outros proprietários sempre demonstram muito carinho por nós profissionais, já recebi fotos dos pacientes depois que eles se recuperaram, doces e comidas (segundo os proprietários para comer no intervalo), um dia desses em uma consulta a proprietária trouxe o filho de uns 10 anos, no meio da consulta ele me pediu um papel e uma caneta e no final me entregou um desenho dizendo ser um presente por tratar do cachorro dele.
Esse tipo de demonstração de carinho e respeito faz a gente lembrar como somos importantes na vida de várias animais e de várias pessoas.

Eu respeito muito essas pessoas que conseguem em momentos de sofrimento, desespero e dor, ainda pensar no próximo, fazer um agrado e tudo mais, e vejo que são pessoas realmente ilumidas e fora do comum, pois me colocando na pele dessas pessoas não sei se conseguiria fazer o mesmo.
Respeito também os outros proprietários que não fazem esses agrados, mas que pensam no melhor para o animal. Sei que as pessoas são diferentes e para mim, a obrigação do proprietário não é agradar o veterinário, mas fazer o que for melhor para seu animal.
Sei que muitas vezes a parte financeira limita muito a ação dos proprietários, mas isso não pode ser desculpa para deixar de fazer pelo menos o mínimo pelo animal, afinal de contas (sei que o que vou dizer pode não pegar muito bem) todos sabemos que ter um animal gera muitos gastos e sinceramente, se não temos condições de dar o mínimo para eles é melhor não tê-los (sugiro a leitura sobre posse responsável para saber mais a respeito disso).

Se me perguntam qual é o melhor tipo de proprietário, a resposta é simples e direta, aquele que cuida bem do seu animal. Não me importa se tem dinheiro, se é arrogante, educado, etc. para mim o importante é gostar e tratar bem do animal.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A vida e a morte

Não poderia deixar de começar com o tema mais intrigante da humanidade, a vida e a morte. Quem determina quem vive e quem morre? Como sabemos quem vai morrer ou quem irá viver? São questões difíceis e que provavelmente serão difíceis de ser respondidas, na verdade não tenho a mínima pretensão de respondê-las aqui, afinal não sei a resposta. A única coisa que sei é que me questiono sobre isso a cada instante, a cada caso complicado que atendo.


A primeira vez que me deparei com essa questão foi ainda na faculdade, estava fazendo um plantão voluntário, ainda estava no primeiro ano de faculdade e não sabia nem o que era realmente a veterinária (a noção que eu tinha não chegava nem perto da realidade). Estava acompanhando uma professora da clínica de pequenos animais e em um dos atendimentos ela me disse que iria precisar fazer a eutanásia de um animal, ele já estava muito debilitado, acometido de vários tumores espalhados pelo corpo, não conseguia mais andar, estava cega e com muita dor (mesmo dando os mais potentes analgésicos existentes). Ela perguntou se eu queria acompanhar e eu respondi que sim, afinal eu sabia que infelizmente aquele seria um aprendizado necessário para mim.

Depois que o animal estava anestesiado e sem sentir mais nada, a professora me perguntou se eu queria aplicar a injeção que iria fazer parar o coração dele; na mesma hora repondi que sim, afinal aquele seria um aprendizado e eu estaria treinando a dar injeções e não teria problemas de sofrimento do animal porque ele estava totalmente anestesiado, mas um segundo depois me arrependi e disse que não seria justo eu fazer aquilo, a minha justificativa foi muito simples e aceita tranquilamente pela professora, como é que eu poderia fazer isso com um ser vivo de 22 anos de idade se eu tinha apenas 18? Parece uma justificativa estúpida, mas foi uma questão de respeito a uma vida que estava indo.


Nesses anos fazendo cirurgia em animais aprendi e aprendo muito a cada dia, é impressionante como cada animal reage de maneira diferente e temos que estar preparados para tudo a todo instante. A morte não costuma anunciar sua chegada, muitas vezes ela chega de mansinho e quando a equipe percebe muitas vezes é tarde demais. Por isso é importante ficar sempre atento, a morte pode chegar a qualquer momento, em situações que você nunca pensaria que ela pudesse ocorrer.

Em compensação a vida ressurge dos lugares mais profundos e de onde você nunca imaginou que pudesse ocorrer, já falamos demais da morte, prefiro falar da vida, pois é por ela que sempre lutamos.


A primeiro caso que quero falar sobre a vida é da história de um animal que merece viver porque quer viver. Não acompanhei esse animal, apenas o conheci, mas é algo que todos devemos saber para nunca desistirmos de nada. A mãe desse cachorro teve um problema na hora do parto e acabou morrendo (antes de parir), o proprietário estava levando o animal ao hospital veterinário quando isso aconteceu, ou seja, a mãe dele chegou morta.
Como de praxe ela foi levada ao departamento de patologia para ser submetida a necropsia (em humanos também chamam de autopsia), foi colocada na câmara fria (por mais ou menos meia hora) e depois feita a necropsia. Quando o patologista abriu o útero do animal, teve uma grande surpresa, um dos filhotes ainda estava vivo!
Esse filhote acabou sendo adotado por alguns estudantes e hoje vive bem e saudável. Tudo bem que tem algumas dificuldades de aprender algumas coisas, é totalmente insano e bagunceiro, mas quem pode criticá-lo por isso? Depois do que ele passou, ninguém pode falar mal dele.

Ainda há casos que a gente tem quase certeza de que ele vai morrer, mas a vida já me ensinou a não desistir nunca, não sei se posso chamar de milagre, mas casos imprevisíveis acontecem. Um dia desses fiz a cirurgia de um cão de grande porte, aproximadamente 10 anos de idade, com torção gástrica. Quem já se deparou com um caso desses sabe que se trata de uma doença terrível e o animal tem que ser operado rapidamente e o prognóstico é sempre de reservado a ruim.
No caso desse animal quando comecei a cirurgia percebi que o prognóstico era péssimo, se eu quisesse poderia eutanasiá-lo tranquilamente por saber que ele estava muito ruim e praticamente não tinha chances de sobreviver. Mesmo assim resolvi dar uma chance para a vida, fiz todo o procedimento cirúrgico (para se ter uma idéia da gravidade, o estômago já estava rompido e tinha comida espalhada por todos os lados, o baço estava necrosado e o animal estava muito mal durante a anestesia) e conversei com o proprietário, alertando dos riscos e que possivelmente ele nem retornasse da anestesia, mas que eu gostaria de dar essa chance dele sobreviver, era uma chance mínima, mas enquanto se está vivo, ela sempre existe.
Nem preciso dizer que ele se recuperou muito bem da cirurgia e hoje ele está bem.

Falando sobre vida e morte me lembrei de outros dois momentos, em um deles enquanto eu fazia residência em cirurgia de pequenos animais, atendi o cachorro de um professor e nesse atendimento ele teve uma parada cardíaca. Fazendo todos os pocedimentos necessários, precisei abrir o tórax e massagear diretamente o coração... acho que essa é uma das melhores sensações que alguém pode ter na vida, quando você começa a massagem, o coração está parado, totalmente flácido, estático, sem vida; fazendo os procedimentos e o animal respondendo ao tratamento ele começa a ter vida novamente e ele volta a bater novamente. Sentir isso na palma da mão é algo que om certeza nunca vou esquecer e cada vez que preciso fazer isso, lembro que uma vida está nas minhas mãos (literalmente) e isso traz muitas responsabilidades e deveres. Muitos podem achar que eu gosto disso por uma sensação de poder, de me achar um "Deus", mas não é nada disso, a sensação é de ter conseguido um trabalho bem feito e que "alguém" permitiu que aquela vida continuasse.
Por outro lado também lembro de um gato que precisei fazer uma cirurgia torácica, mal comecei a cirurgia e o coração dele começou a ter problemas, ainda estava batendo, mas muito devagar, fizemos o possível, mas o coração parou nas minhas mãos...... do mesmo modo que fazer um coração voltar a vida é maravilhoso, uma das piores sensações (por saber que temos limites e que não há como mudar isso) é sentir uma vida literalmente escapar entre seus dedos.

E o aprendizado disso tudo? Posso resumir em uma única coisa (que talvez eu mude de opinião no futuro), hoje eu não faço mais eutanásias, deixo o animal viver, sempre dou uma chance para a vida. Mas e o sofrimento? Sempre me preocupo com a qualidade de vida do animal, uso todos os medicamentos necessários e principalmente controlo a dor da melhor maneira possível. O que sei é que ainda temos muito a aprender sobre as doenças e como tratá-las.
O ser vivo é uma caixinha de surpresas com milhões de variáveis, só quando conseguirmos identificar cada variável e soubermos como elas interagem entre si é que saberemos quando alguém irá viver ou morrer, enquanto esse dia não chega, prefiro dar uma chance à vida.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Ética profissional: primeiro passo para uma medicina veterinária de qualidade.

A ética é tida muitas vezes como algo subjetivo e muitas vezes é pouco respeitada pelas pessoas. Os Médicos Veterinários, como qualquer classe profissional, seguem um código de ética que serve para proteger os animais, os proprietários e os próprios veterinários.

Quanto ao código em si, temos várias partes que tentarei explicar rapidamente, algumas, para depois explicar o porquê desse tema logo no primeiro capítulo dessa jornada. O texto integral pode ser facilmente acessado no site do Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo ( http://www.crmvsp.org.br/crmvsp/legislacao/cod_veterinarios.aspx).

A primeira parte que eu destaco é o juramento do médico veterinário: " Sob a proteção de Deus PROMETO que, no exercício da Medicina Veterinária, cumprirei os dispositivos legais e normativos, com especial atenção ao Código de Ética, sempre buscando uma harmonização perfeita entre ciência e arte, para tanto aplicando os conhecimentos científicos e técnicos em benefício da prevenção e cura de doenças animais, tendo como objetivo o Homem". Logo de cara o que me chama atenção é que a prevenção e a cura de doenças animais tem como objetivo o homem, ora muitos podem a princípio discordar, dizendo que só pensam no bem estar animal, mas no fundo o objetivo é sempre satisfazer as necessidades humanas, e essa é uma realidade que deve ser sempre encarada.

Dizer que o objetivo da medicina veterinária é o homem não significa dizer que não devemos nos importar com os sentimentos e bem estar animal, muito pelo contrário, o próprio código de ética diz em seu artigo 25 que "o médico veterinário deve:
I - conhecer a legislação de proteção aos animais, de preservação dos recursos naturais e do desenvolvimento sustentável, da biodiversidade e da melhoria da qualidade de vida;
II - respeitar as necessidades fisiológicas, etológicas e ecológicas dos animais, não atentando contra suas funções vitais e impedindo que outros o façam;
III - evitar agressão ao ambiente por meio de resíduos resultantes da exploração e da indústria animal que possam colocar em risco a saúde do animal e do homem;"

Além disso há um capítulo que fala exclusivamente do sigilo profissional, que impede a publicidade de informações que não podem ser transmitidas a leigos no assunto, a informações sigilosas entre outros. Muitos devem estar se perguntando: mas se não pode dar informações a leigos, por que ele está falando tudo isso? Calma, algumas informações podem ser dadas sem nenhum problema, essas por exemplo eu sei que são de domínio público por estarem disponíveis, a qualquer um, no site do conselho.

E ainda há outras várias normas sobre a ética do médico veterinário que podem ser lidas no site já indicado. E para quê eu fiquei falando sobre ética? Simples, fiz questão de colocar tudo isso aqui, para avisar que nessa jornada não iremos discutir ou detalhar questões técnicas da Medicina Veterinária, apenas gostaria de transmitir algumas emoções e aprendizados que se adquire com cada caso atendido, enfim, como diz o nosso juramento, como fazer para buscar a perfeita harmonia entre a ciência e a arte. Como faço apenas cirurgias em animais, a grande maioria das histórias são sobre casos cirúrgicos, por isso o nome "Arte e alma do bisturi". Sejam todos bem vindos a essa aventura.